segunda-feira, 13 de outubro de 2014

qualquer coisa para ser

como chagas
os pressupostos em mim
"trazes toda a capacidade
para atingir um fim"
mas na mal fadada vontade
o culminar das coisas apenas
vislumbro caminhos que se fazem omissos
por entre risos que escancaram
as portas com violência tal que
o trilho deixa de querer ser caminhado
por escárnio do trajecto tomado
e boom!
acaba tudo num sonoro perplexo
de quem não quis que acabasse assim
e que em cada passo viu mil caminhos
mas que mil caminhos foram risos
risos que não importariam
se não fossem os risos que importam.

sábado, 16 de agosto de 2014

A Margaret Tommetet vai adorar este porque não sendo para ela eu sei que pronto

Quando a beijo principio,
Os olhos negros vêm por dentro
E as imagens formam-se reais.

O Mundo que é mundo,
O mundo Mundo contigo.
O Mundo mudo contigo.

Na abstracção da maior forma
Deixar de ser para Ser

Teu toque, que esqueço perpétuamente
Para que volte a acontecer.

Findo o enlace o abraço que desejo
E abraço-te amando
Todo o amor em todo um beijo.

Na hora matinal tardia
Na fantasia de o que tem de ser:
Deixar que o tempo corra
Para o Tempo poder Viver.

A eternidade é uma distância
A distância de mim, a ti.

E a eternidade sempre muda.
E a distância? Nunca igual.

Porque o que se sente é que importa
E tudo o que importa,
És tu.

Quando a beijo principio,
No abraço dela me crio,
No estar com Ela o meu berço:

Nasço novo inteiramente
Sem carne, sem osso, sem pele.

Sou todo eu pleno com o Mundo e o Universo:
Desfaço-me de mim e sou teu.

Sou teu e não sou eu. Sou Eu.
Mais elevado. Transformado
Ao expoente da transmutação.

Tu és a razão para que bata o meu coração.

PS.: Ainda que deixe de ser carne ou mortal
Mortal é a condição em que te amo.
A imortalidade é amar-te.

domingo, 13 de julho de 2014

Para Ti

O meu ser torna-se matéria incandescente
Às tuas palavras.

O calor que transportas dos teus lábios para os meus;
E o pouco que aguento sentir-te assim -
Mudo de estado e derreto
Metal fundido da paixão que és em mim.

A saudade na distância que o tempo leva;
Ou a epopeia das semanas por passar -
E a cada carinho que transmites
Sentir mais vontade de te amar.

Qual este fogo de metal e de gente
A alquimia pura de um sentimento diferente -
Ter sido chumbo pesado a vida toda

E ao unir das tuas mãos às minhas
O rearranjo de protões na alma...

Ou a forma de não ter como acabar este escrito.
Como quem diz - nem tudo está dito.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Ode a Neruda

sempre que bebo café sozinho
o neruda senta-se na minha cadeira
eu bebo meu café em pé assim
como quem quer fumar um cigarro à varanda
e esses dois, o meu e o dele
caem lentamente como as torres gémeas em
nova iorque
a minha tragédia pessoal

o ambiente fica sempre pesado
eu nunca fui homem suficiente
para me oferecer a tirar-lhe o casaco
mas não estou errado,
ele sabe que fazemos todos o mesmo
há-de ter havido quem tenha morto
bem mais espanhóis que o alvares pereira
mas alguém se esqueceu de apontar
o seu nome
e agora é como se esses espanhóis
nunca tivessem morrido
somos nós a dar o limbo da existência
o purgatório cruel a gente do passado
com as nossas palavras assertivas
e os nossos factos radicados.
o alvares pereira devia ser um filho da puta.
o neruda é um filho de uma puta.
mas escreve como um
e há-de ser por isso
que está por aqui agora.

domingo, 29 de junho de 2014

LTII

(Uma luz suave abate-se sobre si mesma
Nas candeias que, frágeis, se apagam
Ao alumiar a casa no quarto.)

Dedos sôfregos apelam às mãos maiores
Por um pouco mais - de comida.
As mãos dão - dão tudo.
Um carinho de sabor amargo e
As lágrimas caem ao chão,
No escuro; precipitam-se no silêncio
De uma fome demasiada.

sábado, 28 de junho de 2014

Peço desculpa

Em tempos soube o que é escrever poesia
(Penso. Talvez nunca tenha sabido.)
Agora, quando tento escrever
Sucede, tão somente
Que as ideias se sobreponham.

Como se a cada palavra que escrevo
Enquanto a penso escrever
Já outra nasce e quer o mesmo lugar.
(E uma vez que não são bosões
Não podem ter os quatro números quânticos iguais
E portanto não podem ocupar o mesmo espaço-tempo simultâneamente...)

Por fim, o sempre igual sabor.
Não está acabado
Mas fica por acabar...

sábado, 21 de junho de 2014

memórias de guerra

"lembras-te?"

todos os dias.
repetido.
por todas as paredes,
um lugar comum, crucificado.

"era aqui que costumávamos brincar"

eu não.
quem são vocês?
a criança que eu fui
não reconhece o adulto que dela brotou.

"mas os pais vão ficar chateados"

que é deles agora?
ficariam orgulhosos,
sou um herói de guerra,
mas nenhum rei da terra de onde eu venho teve de mo dizer:
bastou olhar na lápide dos meus velhos
para ver a mesma foto-tipo-passe,
a olhar sem condescendência,
apenas
amor(te).

"não, tu é que és"

pois sou.
vocês foram todos.
restam-me sombras,
que guardo na forma de tostões minuciosamente trocados,
sem jukebox para reviver as memórias.