sexta-feira, 25 de abril de 2014

Estou cansado e o tabaco
dorme sobre a mesa.
Há um adamastor para cada momento
rindo atrás das nossas costas
consciente das suas hipóteses.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Há quem nada possa

Um medo - natural como a sede -
Cresce. Seca a garganta
Da mesma maneira que querer água.

Os punhos cerram-se.
(Se não roesse as unhas
Com esta força, talvez,
Só talvez,
Sangrasse um pouco)

A dúvida persiste
O medo insiste
A força evapora-se
E a garganta seca
(Não há água que me valha.)

Lutar pelo que quero.
Mas avistando já as intempéries
Temer prever fraquejar
- Incapaz de pular o muro
Cair redondo sem conseguir alcançar.

Depois os acontecimentos recentes
Fazem-se voz - Quando há agora quem não possa ter medo
E tu paralisas-te
Achas isso bem? Sequer?

Então lentamente puxar a âncora que prendia
Com cuidado para não arrancar a pele das mãos
(Há de ser precisa para agarrar tudo)
E com o medo no peito respirar!

Fechar os olhos quando os olhos enganam.
(Às vezes olhar traz ideias que não somos nós.)
E às tantas a garganta seca mas já sabemos beber.

terça-feira, 15 de abril de 2014

vazio

dói-lhes o peito;

assentaram-nos em contraplacado
e os soldados que partiram para o ultramar
voltaram para não regressar.

sentem-se a definhar;

se brilham os dias é porque as balas são de ouro;
e em cada coração estão 20 delas cravadas
e por cada guerra há mil belas que não serão mais amadas
e por cada morte há uma vela queimada...

a cera encherá os vazios que outros deixaram.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

pm, 1

são horas que já não sinto,
infiéis às portas que abro.

deslizam-me por entre os dedos
e num surto de desassossego
quebram-me.

passam dias desde que vi
e desde então nunca mais fui cego.